Por Cláudio Fernandes
Dias após o basquete do Flamengo voltar a brilhar ao conquistar o Super 8, Guilherme Kroll, vice-presidente de esportes olímpicos do clube, recebeu com exclusividade a Tribuna da Imprensa para conversar sobre a conquista, sobre os projetos para a modalidade no clube.
A conversa, contudo, foi além. À vontade, o dirigente falou sobre o esporte olímpico de uma forma geral, sobre a gestão da “cidade” que comanda e o patamar em que o Flamengo se encontra a meses dos Jogos Olímpicos de Paris.
Confira abaixo os principais trechos
Importância do Super 8
Estamos em uma temporada muito forte. Quantidade muito grande de jogos, de desafios. Esse Super 8 é o fecho da metade da temporada. São 19 equipes no NBB. Jogamos 18 jogos, ficamos no primeiro lugar do turno. Isso nos deu enorme vantagem de jogar o Super 8 inteiro no Maracanãzinho. A Unifacisa (adversária na final) pagou um preço caro por ter ficado em sexto. Jogou em Franca, em Minas Gerais e aqui no Rio. Sempre viajando. Viagens relâmpago, sem poder se programar porque dependia de ganhar os jogos para saber onde seria o próximo.
Foi uma vantagem muito grande para o Flamengo. Confirmamos esse primeiro lugar no turno do NBB conquistando o Super 8. Isso nos dá a vaga para a Champions League das Américas, que é uma Libertadores melhorada, porque tem equipes do Canadá, do México, da América Central.
Planejamento facilitado
Então o Flamengo, que está disputando a Champions League desse ano, já está garantido na do próximo. Já temos calendário internacional para 2025. Isso, para quem gere esporte, é fundamental. Durante muitos anos os clubes pequenos de futebol, por exemplo, tinham dificuldade de se estruturar porque o ano deles era só o Estadual. Quando há calendário internacional garantido pro ano seguinte, começamos a negociar o orçamento a partir de já.
Então foi muito importante em todos os sentidos. Resgate, o campeão voltou. Aqui no Brasil é notável que a distância dos melhores jogadores para o segundo degrau não é tão grande assim. Mas o Franca na temporada passada conseguiu manter na sua equipe o Lucas Dias, o Jorginho e o Lucas Mariano. Então ficou com uma equipe praticamente imbatível. Tanto que ela ganhou tudo, até o Mundial. No momento em que virou uma equipe normal, chegou a hora de o Flamengo voltar a ganhar. Até porque também se fortaleceu muito. Acho o plantel desse ano muito bem formado e com uma comissão técnica que sabe trabalhar.

Gabriel Jaú como MVP
Tenho relação especial com craque. É uma patologia minha. Amo craque. Cada um ama o que quer na vida. Eu amo talento, quem desenvolve talento. O inimitável. E o Jaú é inimitável. É muito forte, muito duro. Às vezes a arbitragem até confunde um pouco a natureza dele com violência. Só que eu jamais o vi agir com violência. Só que ele joga duro com quem é mais forte que ele e também contra os mais fracos. Não tem parâmetro de quem está enfrentando. Ele joga duro sempre. Em todos os jogos. Isso às vezes é mal interpretado pela arbitragem. Isso às vezes o atrapalha um pouco. Fica com dúvida se vai com a direita ou a esquerda. Isso tudo é um processo de crescimento que está acontecendo.
Mas ele deu muita sorte de estar sendo comandado pelo Gustavinho (Gustavo de Conti), que é um técnico mais duro do que ele. O Jaú precisa de um técnico duro. E o Gustavo é quem ele precisa. Então está cada vez melhor no jogo interno, externo, sabendo como concluir cada bola. E foi coroado sendo o MVP do Super 8 com muita justiça.
Pontos fortes do time
Muita coisa. Em primeiro lugar sempre o Olivinha, que é um jogador que todos dizem que está no último ano da carreira há muitos anos. E digo que ainda temos uma Olivinha-dependência. Segue como o exemplo positivo. É quem contamina positivamente os colegas. Impressionante como ele é um jogador que quando não está bem posicionado ele se supera e, no mínimo, toca na bola para criar outra disputa em outro espaço.
Ele não está derrotado em nenhum lance. Todos os lances em que o Olivinha estiver, o Flamengo tem chance de sucesso. É um jogador que convive absurdamente com o desequilíbrio. Jogadores normalmente procuram se equilibrar para jogar. Olivinha joga desequilibrado. Ao ponto de às vezes jogar melhor desequilibrado. Às vezes, quando está equilibrado, busca o desequilíbrio e joga melhor assim. Chega a ser irônico. Isso é absolutamente fantástico e acho que o fim da carreira dele está muito longe de acontecer.
A gestão do basquete
A vice-presidência é composta de diversas diretorias. Aqui cada modalidade olímpica tem a sua diretoria. O basquete é uma parte do meu trabalho. A diretoria de basquete, com o Diego Jeleilate, que é um cara diferenciado no mercado. É o diretor de seleções da Confederação Brasileira de Basquete, muito bem relacionado no mundo inteiro, com o mundo do basquete. Então tudo no basquete passa pela diretoria. Eles celebraram muito e com muito motivo. É um belíssimo trabalho do Diego e da Comissão Técnica do Flamengo.
DNA vencedor
Eu quero tudo. Ganhar o próximo jogo. E o próximo título, E o próximo também. Quero tudo. Quero a temporada perfeita. Vencer o NBB, a Champions League e nos classificar para buscar o tricampeonato mundial. O Flamengo é isso. Vencer. A gestão Landim é isso.
Às vezes a torcida não entende, no seu papel de cobrança. Mas a gestão coloca, investe, faz a engenharia. Aliás, abro um parêntese porque que andaram deturpando essa palavra aqui dentro. Sempre disse que a engenharia é uma coisa fundamental. A vida inteira o esporte foi dividido em engenharia, em planilha e na execução. Borda da piscina, beira da quadra. Sempre foi o casamento da engenharia com a prática esportiva, com a gestão esportiva.
Antigamente ou em outros clubes a engenharia era feita pelo Departamento financeiro, pela administração. O Flamengo tem a benfeitoria, o mérito de a engenharia sair de dentro do próprio esporte olímpico. Estamos aqui 24 horas por dia. Então vemos o tempo inteiro vendo o que é o melhor para o clube dentro do orçamento que tem.
Responsabilidade do cargo
O sonho era trazer o Michael Jordan, o Michael Phelps. Se eu fosse político, poderia estar aqui conversando com você e te prometer um monte de coisas. É mole prometer. Mas eu não posso falar nada em reunião alguma aqui, nem na mais simples que eu tiver, sem que eu saiba, sem que me digam o impacto de uma decisão. Qualquer decisão que eu for tomar precisa vir junto o impacto dela. Eu não posso decidir aqui e amanhã ter um piquete, uma greve, ou estourar orçamento, faltar bola. Eu tenho que saber sempre o impacto de qualquer decisão. Se não vou me sentir traído. Preciso ter todas as informações. E o segredo do nosso sucesso aqui é que eu sou muito bem provido a respeito do impacto de qualquer decisão. Se eu tomar alguma decisão aqui e não der certo pode ter certeza que eu sabia do risco.
Mensagem final
O esporte olímpico é composto por 1000 atletas, 3000 alunos de escolinhas, são mais de 500 funcionários. São muitos pais, mães, irmãos, avôs no nosso entorno. É grande como uma cidade. Nesse momento político a gente fica até bastante assediado. Muita gente de olho no nosso cargo. O problema é que o patamar ta lá em cima. Nosso cargo é político e sempre estará à disposição do presidente. É dele o cargo. Qualquer pessoa que nos substituir, claro que pode vir com muito mais competência do que nós, mas que o sarrafo está lá em cima, não há nenhuma dúvida.
Por exemplo, o judô do Flamengo começa com 13 anos e vamos passar a começar com seis. Vamos massificar, atender muito melhor os filhos dos associados. Quem faz academia fora vai poder competir pelo Flamengo. Estamos sempre de olho no crescimento e no associado não só em termos de entretenimento mas também em termo de prática esportiva.
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