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ESPORTE

A história viva do remo rubro-negro

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Foto: Niviane Carneiro

 

Por Cláudio Fernandes

 

Há seis anos Raul Bagattini é o vice-presidente de Remo do Flamengo. Desde que assumiu o cargo, a convite do presidente Rodolfo Landim, o clube reencontrou o caminho de vitórias no esporte, que se confunde com a própria história daquele que é, afinal, o Clube de Regatas do Flamengo.

Contudo, para entender todo o processo de transformação recente, é preciso começar essa reportagem pelo fim. O fim da carreira de remador de Raul Bagattini e mais exatamente a razão pela qual ele parou é a tradução mais fiel à competitividade com que ele disputou cada remada. E isso, naturalmente, foi transportado para o dirigente.

“Parei porque tinha gente jovem, com mais disposição. Parei porque não queria que alguém virasse e falasse: ‘Ganhei do Raul’”.

Raul Bagattini jamais perdeu uma prova disputada na Lagoa Rodrigo de Freitas.

 

Confira abaixo os principais trechos da conversa exclusiva com a Tribuna da Imprensa.

 

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Raul está imortalizado em diversas homenagens na sede do Flamengo – Foto: Niviane Carneiro

 

Quem é o Raul Bagattini e como começou a remar?

 

Nasci em Encantado, interior do Rio Grande do Sul, e fui criado em Xanxerê, Santa Catarina. Meu pai é dono de fazenda e trabalhei muito desde pequeno. Em fazenda você começa a trabalhar quando o sol nasce e só para quando ele se põe. Quando veio a idade, servi o exército à época da revolução. Nesse período, 1970, vim remar aqui.

Comecei a ir em competições e a progredir, dar resultado. É para a frente que a gente anda e não parei mais. Lá se vão 54 anos. Sempre tive muita condição física e dois anos depois estava na Olimpíada de Munique, na Alemanha.

 

A história no Flamengo

 

Aqui só tenho histórias e lembranças boas. Em 18 anos de remo fui campeão estadual em 15. Em todos esses anos jamais perdi sequer uma prova aqui na Lagoa. No geral de competições perdi um Pan-Americano (1969, em Porto Rico, ficou em terceiro) Olimpíada e Mundial. Ganhei brasileiro, Sul-Americano, etc.

O segredo é que eu treinava de três a cinco horas por dia. Tinha boa condição física, mas precisava aprender. Então sempre treinei o dobro em relação a todos os outros.

Quando dei baixa no exército fiquei aqui seis a oito meses sem trabalho. Foi meu pulo da vida. Todos os dias eu pegava a bicicleta e ia daqui ao final do Recreio dos Bandeirantes, lá na Estrada do Rio Morto. Eram umas três horas. Ia pela Niemeyer. Outro dia saia daqui e ia ao Leme e voltava. No exército a gente ia até a Estrada das Canoas correndo. Quase três horas.

 

Aposentadoria e a vida ‘fora’ do clube

 

Parei porque tinha gente jovem, com mais disposição. Parei porque não queria que alguém virasse e falasse: “Ganhei do Raul”. Assim, muitos que estavam começando me tiveram como exemplo. Eu falava “quer me imitar, vai treinar”.

Em 1987 me candidatei a presidente da Federação de Remo e fiquei quatro mandatos consecutivos. Fora do remo tive algumas empresas, inclusive de construção civil. Aqui não tenho remuneração. Construí muitas escolas, vila olímpica do caju, fizemos muita coisa. Aqui era o lazer, a parte divertida. Mesmo sem ter cargo, jamais deixei de frequentar o Flamengo.

 

O Raul dirigente

 

Saí da Federação de Remo em 2003 e o Márcio Braga me chamou para ser vice aqui. Fui seis anos vice dele e agora seis anos com o Landim.

Voltei porque o Landim disse que eu seria o presidente do remo. Que financiaria o que eu precisasse fazer aqui. Aí fizemos essa transformação aqui. Passou o cavalo encilhado e lá no sul a gente aprende que ele não passa novamente.

Tudo vem dando certo porque a relação com o Landim é ótima. Sempre foi. Não faço parte de qualquer grupo político. Ele me chamou. Falo diretamente com ele. Está dando certo porque estamos ganhando tudo.

 

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A área do remo rubro-negro revitalizada – Foto: Niviane Carneiro

 

Como encontrou o remo em 2019?

 

O (ex-presidente) Bandeira de Mello conseguiu ficar seis anos sem ganhar um título. Desde que voltei com o Landim ganhamos cinco brasileiros. Em resumo, ano passado perdemos por dois pontos. Havia dois gerentes, um achando ser melhor que o outro. Mandei os dois embora.

 

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Foto: Niviane Carneiro

 

O processo de transformação

 

É um jogo de xadrez. Iniciamos um bom trabalho com a CBC (Confederação Brasileira de Canoagem) e há uma verba que vem pela Caixa Econômica pelos resultados que fazemos. Esse dinheiro serve pra comprar barco e pagar atletas. Não pode fazer obra. Conseguimos mais ou menos R$ 22 milhões. Dessa forma, compramos barcos, equipamos academia, tudo importado, fino trato. Nossos barcos aqui são de olimpíada e sempre estamos modernizando. Trabalho com objetividade gera resultados.

A parte técnica também é importante. Estamos com o terceiro técnico estrangeiro. No fim do ano passado teve um campeonato sul-americano no Paraguai. Esse técnico que está aí, com nove atletas, ganhou. A gente com mais de 20 ficou em quarto. Aí contratei ele.

Com isso, nove atletas foram embora e o técnico/gerente antigo. Trouxemos novos e tudo melhorou muito. Teremos um sul-americano em março e o pré-olímpico. Temos 17 atletas do Flamengo na Seleção.

 

Buck

 

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Guilherme Augusto do Eirado Silva comandou o departamento de remo do Flamengo por mais de 30 anos – Foto: Niviane Carneiro

 

O Buck foi o único treinador que eu tive. Era primordialmente exigente. Um cara que a gente brincava muito, ficava invocado. Passava a mão na careca dele, ele reclamava. Em 36 anos, ganhou 30 estaduais. Com ele só perdi dois campeonatos. Um em 1970 e outro em 1982.

 

A experiência olímpica

 

Em 1972 estávamos pra ganhar medalha na Olimpíada. Viajei com sinusite. Fomos competir dois meses antes dos jogos na Europa. Estava um sol forte. Quando fomos de trem pra Munique, o tempo esfriou e pegamos muita chuva. Sinusite piorou, quando fomos treinar na cidade, nova chuva. Aí a sinusite foi pro máximo. Ficamos entre os 12, não deu pra fazer mais.

Em Montreal, eu e o cara que remava comigo estávamos ganhando tudo. Ele ia casar na época da Olimpíada. A dois meses da viagem a mulher disse que se ele fosse o largaria. Além de tudo ele ficaria desempregado. Como, afinal, não ganhávamos nenhuma remuneração, ele não foi. Não teve jeito.

 

O Futuro

 

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Parte da galeria de troféus do remo do Flamengo – Foto: Niviane Carneiro

 

Até o fim desse ano chegaremos perto, mas até o fim do ano que vem vamos colocar o Flamengo liderando tudo. Estou com quase 170 atletas registrados aqui. Mais de 200 escolinhas. O futuro do Flamengo inegavelmente é ganhar sempre. Mais do que hoje e mais a cada dia.

 

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