Além dos inimigos externos, o Estado Judeu também enfrenta dificuldades internas, com a direita do país toda fragmentada e muitas disputas pelo poder
A guerra iniciada pela invasão do Hamas ao território israelense, ocorrida em 7 de outubro, caminha para completar um ano sem uma solução à vista. O cenário complexo do Oriente Médio aumenta a tensão no combate ao jihadismo islâmico, considerado uma das maiores ameaças ao Ocidente. Em uma entrevista exclusiva à Tribuna da Impresa, o jornalista e pesquisador José Roitberg aborda as causas do conflito entre palestinos e judeus, e como ele se alastrou pela região.
Tribuna da Imprensa – Existem um território e um povo palestino?
José Roitberg – Sim. Existe um povo palestino, que foi criado por decreto quando a Organização Para a Libertação da Palestina (OLP) foi fundada no Cairo, capital do Egito, em maio do ano de 1964. Segundo o artigo 5 do estatuto da fundação OLP: “Os palestinos são os cidadãos árabes que, até 1947, residiam normalmente na Palestina, independentemente de terem sido expulsos dela ou de terem permanecido lá. Qualquer pessoa nascida, depois dessa data, de pai palestino – seja dentro ou fora da Palestina – também é palestina.”
Quanto ao território, o artigo 2 do estatuto define ainda a “Palestina” como todo o território do Mandato Britânico – considerado indivisível. A partir dessa definição, os judeus não poderiam ser considerados palestinos, mesmo que vivessem na Palestina do Mandato Britânico. Como consequência do artigo, é considerada inválida a partilha deste mandato em um Estado Judeu e um Estado Árabe, mesmo tendo sido definida pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), conforme ocorrido em 1963, quando a instituição também definiu a Partilha do Subcontinente Indiano – considerada válida pelos palestinos-, através da qual foram criados a Índia e dois estados muçulmanos: o Paquistão Ocidental (sunita), hoje Paquistão; e o Paquistão Oriental (xiita), atual Bangladesh.
Naquele momento, 1964, Egito e Jordânia dominavam a Faixa de Gaza e a Cisjordânia, respectivamente; tendo esta última sido ocupada pela Jordânia, em julho de 1948. A libertação da Palestina, no entanto, nunca pressupôs qualquer ação contra os países dominadores, apenas contra Israel, que por eles foi invadido, em 16 de maio de 1948. O objetivo era destruir o Estado Judeu, que havia declarado independência no dia anterior. Com várias fases, a guerra só terminou em janeiro de 1949, com a Jordânia conquistando toda a Cidade Velha de Jerusalém, de onde foram expulsos todos os judeus em conformidade com a lei jordaniana que proíba que eles residissem naquele território.
Como a Cisjordânia estava sob domínio jordaniano todos os judeus que estavam nesse território também foram expulsos. A medida nunca foi definhada como limpeza étnica, apenas cumprimento de lei.
Na Guerra dos Seis Dias, em junho de 1967, Israel expulsou as tropas jordanianas da Cisjordânia e as tropas egípcias de Gaza e do deserto do Sinai. O território desocupado jamais foi tomado dos palestinos, somente dos dois países árabes, que impediram a criação de um outro país árabe, denominado Palestina, em 16 de maio de 1948.
Quanto ao nome Palestina é necessário fazer alguns esclarecimentos. Quando o imperador romano Adriano I destruiu Jerusalém, encerrando a Guerra dos Judeus, no ano 135 DC, ele decidiu apagar os vestígios dos judeus da cidade, prática comum ao Império Romano. Para isso, pediu aos sábios que reunissem os nomes dos inimigos históricos dos hebreus, escolhendo “Filistia”; os filisteus, povo extinto há mais de 400 anos. A escolha permitiu que Adriano renomeasse a Província da Judeia como Província da Syria Philistia. No ano 680 DC, o Califa Omar conquistou Jerusalém, mesmo assim, os muçulmanos jamais chamaram a região de Palestina.
Ao longo do tempo, o termo sofreu alterações linguísticas, do grego para o latim e para as línguas europeias, com os cristãos chamando a região, não o país, de Palestina. No século XIX, apenas os judeus sionistas ocidentais empregavam o termo Palestina para se referir à região, enquanto os árabes usavam Síria do Sul. Foram os britânicos, ao aceitarem a rendição do governador turco em dezembro de 1917, durante a Primeira Guerra Mundial, que começaram a usar o nome Palestina para se referir à região. Com isso, os nascidos na região entre 1917 e 15 de maio de 1948, de qualquer religião, passaram a ser chamados de palestinos.
Tribuna: Quais são as origens do conflito entre palestinos e judeus?
J.R. – Durante o domínio do Império Otomano – muçulmano sunita, não árabe – sobre Jerusalém, entre 1521 e 1917, os judeus e os cristãos exerciam uma cidadania de segunda categoria, com liberdade relativa, sendo os primeiros chamados de “dhimmis”. Os judeus eram obrigados a pagar os mesmos impostos dos muçulmanos, acrescidos de um adicional anual por não serem muçulmanos. Em 1500, os hebreus expulsos da Península Ibérica pediram autorização ao sultão turco para se estabelecerem em Jerusalém, o que lhes foi negado. A eles foi concedido o direito de se instalarem em Safed, cidade que se tornaria um enclave místico judaica. Apesar de algumas restrições, como a proibição de servirem o exército, os judeus não enfrentavam grandes dificuldade no imenso império otomano. A reforma política do império, de 1835, desobrigou os judeus de pagarem o imposto anual.
A partir de 1880, judeus sionistas russos, anteriores ao Congresso Sionista de 1893, começaram a comprar legalmente terras na região do atual Israel, onde começaram a se instalar. Diante do avanço judaico, os palestinos passaram a classificar as transações realizadas entre 1880 e 1947 de “roubo de terras”. A Autoridade Palestina chegou a elaborar uma lei condenando à morte quem vendesse terras aos judeus, que, nos primeiros 40 anos de ocupação, não enfrentaram muitos problemas.
Os conflitos mais sérios só começaram após o Império Britânico nomear o tenente de artilharia turco da Primeira Guerra Mundial, Haj Amin al Husseini, como líder religioso muçulmano de Jerusalém. Foi Husseini quem deu início à perseguição e ataques de emboscadas contra os judeus e as suas colônias agrícolas. No segundo semestre de 1929, comércios judaicos das cidades de Jerusalém, Hevron e Haifa foram atacados, resultando em mortes, estupros e mutilações por golpes de facão e machado. A região, que pertencia à Inglaterra, ainda não era o atual Israel; e Adolf Hitler ainda não havia chegado ao poder, o que só aconteceu em 1933. O ódio de Haj Amin aos judeus não resultava do “sionismo” ou existência de um estado judeu. Era, na verdade, algo já amparado pelo islã radical.
As coisas pioraram quando Haj Amin al Husseini participou de um golpe de estado no Iraque onde inoculou ideias nazistas. Meses depois, ele fugiu para Roma, na Itália, onde Benito Mussolini o apresentou a Hitler, a quem garantiu que todos os muçulmanos do mundo iriam apoiá-lo, assim como o nazismo. Para isso, pediu o apoio da Alemanha para exterminar os judeus do Mandato da Palestina, após o extermínio de todos eles no continente europeu. O mundo muçulmano não seguiu Husseini. Mas os criadores da OLP, sim.
Os judeus não enfrentaram problemas graves com os muçulmanos de outros países árabes, nem na Turquia nem no Irã, onde ainda existem comunidades e instituições judaicas. Foi, na década de 1920, vinte e oito anos antes da criação do Estado de Israel, que os palestinos começaram a ser fonte de sérios problemas para os judeus. Atualmente, a Autoridade Palestina ainda mantém territórios controlados na Cisjordânia; e o Hamas exercia poder na Faixa de Gaza. Nenhum dos dois aceitam a Solução dos Dois Estados, exigindo um só estado muçulmano – livre de judeus.
Tribuna – A invasão de Israel por integrantes do Hamas foi resultado de imprevidência militar israelense?
J.R. –Foi. O erro foi publicamente assumido pelo general Aharon Haliva, então Chefe da Inteligência Militar das Forças de Defesa de Israel (FDI), que confirmou ter recebido, em agosto de 2022, um documento que relatava a estratégia de ataque do Hamas. O general, no entanto, desqualificou a capacidade do grupo terrorista para tal ação, classificando-a de “impossível”.
O militar chegou a mostrar o planejamento a outros militares, arquivando-o posteriormente, sem mostrá-lo ao comando militar ou ao primeiro-ministro, Yar Lapid; ferrenho opositor de Benjamin Netanyhu, que só voltou ao poder em dezembro de 2022. Antes deles, veio Nafatli Bennet, responsável pela colocação do general Haliva no comando da inteligência israelense. A grande falha, portanto, é do governo anterior, não de Netanyhu. Bennet também foi o responsável pela inauguração do muro/cerca de Gaza, com muito mais cercas do que o projeto inicial previa.
Havia teorias de conspiração contra a esquerda, no caso de Bennet, Lapid e do general Haliva; e contra a direita. O fato é que o general Haliva pediu demissão em abril de 2022, por “não suportar a culpa por tantas mortes”, só passando o cargo ao sucessor recentemente. Levanta-se a questão, equivocadamente, se ele, homem de esquerda, teria sido negligente intencionalmente. As pessoas desconsideram que a classificação “impossível” e a não comunicação aos superiores, aconteceram no governo anterior, de esquerda, e não no governo atual, de direita. Haliva ainda tem muito o que explicar.
Tribuna – Na ocasião em que aconteceu a invasão, o governo do atual primeiro-ministro estava em crise. O senhor poderia falar sobre como as dificuldades enfrentadas pelo atual líder impactaram a resposta militar de Israel diante da invasão do Hamas?
J.R. – Não me parece que as manifestações intensas contra as ações do governo tenham impactado a resposta militar imediata, já que mil terroristas do Hamas foram mortos dentro de Israel. O que se sabe, em parte, por exemplo, é que as militares de monitoramento de imagens da Faixa de Gaza, subordinadas ao general Haliva, estavam proibidas de portarem armas no local. Isso faz parte do regulamento militar, mas é inconcebível.
As soldados não tinham nada para se defenderem, sendo várias executadas durante a invasão do Hamas em suas cadeiras, ou enquanto se escondiam debaixo de uma mesa. Outras foram sequestradas pelos terroristas. Os helicópteros também foram proibidos de disparar dentro de Israel, sem uma solicitação das tropas no solo, que não tinham rádios na frequência correta.
Muitos soldados e oficiais combateram os terroristas do Hamas somente com uniformes e fuzis. Em duas situações, tropas com mais de 100 soldados ficaram do lado de fora das áreas de residência judaica à espera de ordens para atacar, ao mesmo tempo que os terroristas espreitavam na mesma linha de frente. Após a chegada de um único oficial graduado, 5 ou 6 horas depois, as ordens de ataque foram dadas e os soldados entraram e destruíram a mobilização terrorista. Outros procedimentos militares errados também contribuíram para o sucesso do Hamas, mas não podemos esquecer que os terroristas dispararam 3.000 mísseis contra Israel. Se o general Haliva tivesse passado o plano adiante, as forças israelenses estariam mais bem preparadas para combater essa artilharia.
Tribuna – Há lideranças e segmentos judaicos que avaliam a resposta de Benjamin Netanyahu à invasão do Hamas como desproporcional. O senhor concorda com essa avaliação?
J.R. – Sim. Mas deveria ter sido ainda maior, pois a linguagem ali é da força. Somente na primeira semana, a partir de 7 de outubro, o Hamas disparou 6.000 mísseis contra Israel. Outra nação teria rapidamente dizimado o inimigo. A desproporcionalidade está no fato de Israel ser signatário de tratados internacionais, como a Convenção de Genebra, e o Hamas ser um grupo terrorista, portanto não subordinado aos instrumentos de regulação internacional que países signatários devem respeitar. Não existe qualquer instrumento jurídico internacional que defina que um grupo que lança 6.000 mísseis contra um país, cometeu qualquer crime e violação. Essa é a desproporcionalidade.
Tribuna – Quantas pessoas ainda são reféns do Hamas? O que se sabe sobre o que aconteceu com elas, especialmente as mulheres?
J.R. – No momento, existem 104 desparecidos, presumidamente sequestrados, entre eles, 14 mulheres e dois muçulmanos beduínos. O mais provável é que a maioria dos reféns estejam mortos. O Hamas jamais divulgou o número de reféns vivos e de corpos de mortos retidos pelo grupo. Há relatos sobre as mulheres que foram libertadas, de estupros e espancamentos. Mas não sabemos se todas as mulheres passaram por isso.
Entende-se a dificuldade que elas enfrentam para falar sobre a violência sofrida. Algumas delas disseram que nada sofreram. A violação à integridade das reféns variou de acordo com quem as guardava. As mulheres que ficaram em casas de famílias não sofreram violências. As que ficaram nos túneis, em celas diretamente sob tropas do Hamas, provavelmente, sim.
Tribuna – Como o senhor avalia o posicionamento da comunidade internacional diante do conflito, que já dura quase um ano?
J.R. – Os países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), com exceção da Turquia, apoiam Israel e identificam o jihadismo islâmico (não o islã) como uma grande ameaça internacional, pois, quando eles dizem: primeiro Israel, depois a Europa; primeiro, os judeus; e depois os cristãos, eles não estão brincando. Há ainda ameaças contra todos os outros muçulmanos que não aderem ao jihadismo.
Foi por isso que, no dia 4 de abril de 2024, aviões de combate de Israel, Jordânia, Inglaterra e Estados Unidos voarem lado a lado para eliminar o maior ataque de mísseis balísticos e de cruzeiro da história, com a artilharia toda vinda do Irã. A ação militar conjunta sinaliza que as forças ocidentais e vários países árabes, como Marrocos, Egito, Jordânia, Emirados Árabes Unidos (UAE) e Arábia Saudita, estão ao lado de Israel e contra o jihadismo. Isso jamais aconteceu.
Tribuna – No que diz respeito às lideranças internacionais de esquerda, como elas têm se comportado diante do conflito? E as lideranças brasileiras, especialmente o governo Lula?
J.R. – Essas lideranças precisam explicar como partidos comunistas e marxistas, na Europa, Estados Unidos e Brasil se posicionam a favor do Hamas e do jihadismo islâmico, que têm ideologia e prática completamente opostas ao que o socialismo defende. Diante disso, só me resta imaginar que eles agem com base nos seus conteúdos programáticos contra o “Imperialismo americano e sua ponta de lança no Oriente Médio”.
Marxistas defendendo o islã, pessoas LGBTQIA+ empunhando bandeiras de quem as mata e as joga do alto de edifícios, ao invés de saírem com a bandeira do país onde têm liberdade total. Isso não pode ser apenas um ato de desconhecimento. Para a esquerda não importa se o arsenal do Egito, do Marrocos, da Jordânia e da Arábia Saudita é norte-americano; se o Egito tem tanque de guerra Abrams, dos Estados Unidos; se existe uma base norte-americana integrada por 11.000 homens no subúrbio de Doha, capital do Catar, com dezenas de aviões de combate de última geração. Para a esquerda, Israel é o problema, é a presença americana na região.
Nos EUA, vemos manifestações, especialmente nas universidades, coordenadas por grupos anarquistas e Partido pelo Socialismo e Libertação (Party for Socialism and Liberation – PSL ), com centenas de americanos fantasiados de palestinos e de mulheres muçulmanas, todos apoiando o jihadismo.
O atual mandato do presidente Lula não difere dos demais quanto a Israel, já que a pasta das Relações Exteriores sempre é entregue a alguém contrário ao Estado Judeu.
Já o presidente do PT parece ter o direito inalienável de se opor ao único país democrático do Oriente Médio e, ao mesmo tempo, saudar alegremente o jihadismo muçulmano. Lula cometeu um erro imperdoável, quando disse que o exército de Israel luta contra mulheres e crianças. Isso foi muito ofensivo para o Hamas e seus 18.000 soldados, martirizados e presentes em seu ‘paraíso’.
Tribuna – Como podemos posicionar a entrada de outros países da região na guerra Israel-Hamas? Há possibilidade de que a guerra se alastre pelo Oriente Médio?
J.R. – Já existe uma guerra no Oriente Médio. O conflito da Síria dura 13 anos, com o país dividido em sete zonas diferentes. A guerra do Iêmen já dura 10 anos, com o país dividido em cinco zonas. O segundo conflito iraquiano, que durou de 2003 a 2011, emendou com o sírio, e o combate ao ISIS (Estado Islâmico), grupo terrorista que opera nos três países. Desde 7 de outubro do ano passado, Israel foi envolvido numa nova guerra, por motivos diferentes, com o Hamas e o Hezbollah. Mas existe, mesmo que remotamente, a possibilidade de uma guerra mais aberta entre Irã e Israel – à distância -, como entre Israel e Iêmen, onde um país lança mísseis e drones com baixíssimo efetivo, e o outro bombardeia um porto. Ações sem mortes. Por isso, digo que a guerra já está muito alastrada, com cada país com seus próprios motivos. Mas ela pode aumentar de intensidade.
Tribuna – Se a questão dos palestinos é apenas territorial, caso Israel reconhecesse a soberania do Estado Palestino, os judeus teriam uma vida mais sossegada?
J.R. – Não. A questão deles não é territorial. No artigo 13 do seu estatuto, o Hamas afirma que a Solução dos Dois Estados não interessa ao grupo, nem as negociações e conferências de paz. Para eles, a Palestina será libertada apenas pela jihad, a guerra santa. Quando o Hamas e o presidente da Autoridade Palestina, que são inimigos, adotam o lema jihdista de dois objetivos: “Vitória ou Martírio”, sabem que o primeiro é impossível. Trabalham, então, arduamente pelo martírio, que os ocidentais veem com descredito. No livro da Jihad, escrito no século X d.C., o mais importante do compêndio denominado Suna, – seguido pelos muçulmanos sunitas -, está escrito: “Eu poderia derrotar seus inimigos com um estalar de dedos, mas vocês precisam se provar em combate. Para aqueles que morrerem, nada faltará.” A base do martírio é: “Allah ama aqueles que são mortos em fileiras por Sua causa.”
Em sua conta oficial na internet, o Hamas celebra as principais mortes em martírio com textos que começam com citações jihadistas ancestrais, como: “E não pense que aqueles que foram mortos pela causa de Allah estão mortos. Antes, eles estão vivos com seu Senhor, sendo providos.” E ainda: “Na verdade, Allah comprou dos crentes suas almas e suas propriedades para que o Paraíso fosse deles. Eles lutam na causa de Deus, então eles matam e são mortos.
Os jihadistas publicam esse tipo de mensagem todos os dias nas suas redes sociais. Nos vídeos da invasão de Israel, dos terroristas do Hamas não se ouvem gritos pela libertação da Palestina, mas de “Allah é grande”. A questão não é política ou territorial. É religiosa e não existe solução. Falar de paz com quem afirma que a paz não existe e que tudo deve ser conquistado pela guerra santa é perda de tempo.
Tribuna – Desde o início do conflito têm sido registradas manifestações de antissemitismo no mundo inteiro, inclusive no Brasil. Esse fenômeno estava adormecido ou qualquer motivo faria com que ele se manifestasse?
J.R. – O que assistimos é um aumento vertiginoso do antissemitismo de esquerda, não o de direita, e menos ainda do islâmico. Quando 15 pessoas de um partido marxista vão às ruas com bandeiras palestinas e cabeças envoltas com o chale, antes só jordaniano, a kfia, parecem que são muçulmanos, mas não são. A kfia se tornou um símbolo de rebeldia desde os anos 1970. Existe uma diferença entre um “discurso antissemita” e um “ato antissemita”.
Muitas bobagens têm sido ditas sobre judeus e contra judeus nas redes sociais não podem ser classificadas como “antissemitismo”. Se as pessoas entendessem que a maioria das pessoas que saem às ruas em protestos, na Europa e nos EUA, não têm a mínima ideia do que estão fazendo, o cenário estaria mais calmo.
Na verdade, o número de incidentes realmente antissemitas, como vandalismo e ataques às sinagogas, na América do Norte, por exemplo, não aumentou. A média é de 1.800 por ano, segundo relatórios do FBI, que não são lidos pela população.
Na comunidade judaica do Brasil, inclusive do Rio de Janeiro, as pessoas estão vendo qualquer manifestação a favor da Palestina, como antissemitismo. Manifestação antissemita é contra os judeus. Quando um desqualificado picha “Palestina Livre” no muro de uma sinagoga, em Santos (SP), ele está vandalizando o templo. Isso não é uma pichação contra os judeus.
Tribuna – Quais são as suas perspectivas sobre o conflito e o futuro dos judeus e de Israel?
J.R. – Essa é a pergunta mais importante. A percepção mais desfavorável aos judeus é a de que Israel impede a criação de um Estado Palestino, esquecendo que a OLP e o Hamas escrevem em seus estatutos que não aceitam a Solução dos Dois Estados. Setores de esquerda lutam pelos Dois Estados, como o PcdoB, que defende um Estado Palestino Laico, sem consultar os palestinos que não aceitariam um país sem o islã, uma vez que são teocráticos. Israel aceita a Solução dos Dois Estados, os palestinos, não. Durante uma entrevista, o líder da OLP, Yasser Arafat, foi perguntado sobre as razões do terrorismo e respondeu: “A culpa é de Israel. Se Israel não existisse, não precisaríamos matá-los.”
Quanto ao futuro de Israel, as perspectivas são um pouco nebulosas. O Hamas, se usado pelo Irã, vai obrigar Israel a cumprir o objetivo do martírio. Tarefa terrível imposta à população israelense formada também por cristãos e muçulmanos, que também servem nas FDI. O futuro próximo, no entanto, deve ser uma força policial militar árabe liderada pelos Emirados Árabes Unidos (UAE) e Egito, na Faixa de Gaza, além de aporte financeiro gigantesco para a reconstrução de Gaza, o que deve gerar centenas de empregos que os manterão longe de Israel. Talvez fiquem bem sem o Hamas, talvez tentem recriar o seu algoz. Com a ajuda financeira terão a oportunidade de construir as cidades mais modernas do mundo. Será que vão aproveitar a chance?
Já Israel continuará internamente dividido, com a direita totalmente fragmentada. Se todos os políticos, que deveriam ser alinhados ao Likud voltassem, o partido teria 65 cadeiras, não precisando fazer coalizões. Mas eles não voltam porque Bibi Netanyahu insiste em permanecer, legalmente, no cargo. Os manifestantes vistos nas ruas de Israel não passam de um amontoado de duas cadeiras no Parlamento, e outros 32 partidos políticos que jamais tiveram ou terão votos para obter cadeiras, como o partido dos aposentados, anarquistas e até mesmo um partido pirata – isso existe. Todos exigem novas eleições, mas jamais serão eleitos. O que eles querem é derrubar o governo da vez, seja ele qual for. E isso é péssimo para Israel e para a sua população, cuja guerra pode terminar em 2026, mas não se sabe ao certo. Há setores da sociedade israelense muito parecidos com os inimigos país. Isso não é bom!
Patricia Lima
